sábado, 1 de julho de 2017

relato do mês sete, dia um

vários tipos de encantos me rodearam:

olhos e  pés dançando
um bando de pássaros voando por cima de mim
acompanhar um menino imitando um bem te vi
ajudar uma senhora na rua e receber um abraço
dançar automaticamente com uma pessoa
fechar os olhos e continuar enxergando
descer rampas sem freio
não cair

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Cuidado ao olhar para os lados.
Uma coisa com um formato familiar pode querer te comer.

Na verdade.

Algo já te come por dentro há muito tempo.

Subitamente orientados pela abjeção a abismos,
Sempre estivemos em um.
Caindo.

Com as pálpebras danificadas.
Tentando enxergar de olhos fechados.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

MerciMaré

Respira.
Respira.
Olha o mar.

Não tem porque cessar
Agora.
Ancorar em locais proibidos,
Fora de margens estreitas.
Difícil entrar,
Mais difícil sair.

Ainda bem que aprendi a nadar.

Fugir de correntes desconhecidas.
Encostar o pé no chão.
Areia.
Amarela, branca, vermelha.
Barro de lagoa nas unhas.

E pra sempre ter água por dentro.
E por fora.
Secando, enchendo,
Que nem maré.

Respira.
Respira.
Olha pra dentro.

Primeiro entender suas marés.
Pra depois pular
De suas pontes.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

a volúpia agora é matéria monetária
e pouco importa quantas morrem
quantas caem

os famintos de brutalidade
atacam por trás e comem até a pele
nada resta se não mais um descaso

portas e janelas batem com força
enquanto a lua cresce com medo
na rua escura histórias se repetem

morrer morrer morrer morrer
a sede dos que acham que são maiores
acaba sugando nosso suor e sangue


quinta-feira, 8 de junho de 2017

dancei durante três horas debaixo da minha mangueira preferida
carros e motos passavam pela estrada ao lado separada apenas
por uma cerca de arame farpado que brilhantemente atuava
como linha tênue enquanto eu dançava debaixo da minha mangueira
os carrapatos e bichos de pé as minhocas e os cachorros
todos eles assistiam minha dança desgovernada
o cheiro de feijão que passava pelos tijolos machucados
anunciava que gritos viriam por aí chamando seu fernando
que antes de pegar faca chapéu e água pra entrar na mata
fazia questão de acordar junto com o sol pra tomar café com ele
perto da estrada existiam duas mangueiras maiores que a casa
quando eu subia na maior delas eu podia ver uma lagoa
a lagoa ficava no final da estrada que os carros e motos passavam
as paredes da estrada eram feitas de muita mata verde
quando não existia barulho de motor dava pra ouvir as histórias dos bichos
um dia eu tava sentada lá na cabeça da árvore e o céu começou a chorar
foi a coisa mais bonita que vi e quando eu fechava os olhos
conseguia ouvir o barulho das gotas rasgando a água da lagoa
nesse dia eu me senti bicho da natureza e comecei a existir

sexta-feira, 12 de maio de 2017

um dia a gente inventa
um nome novo
ou uma nova utilidade
pras cores do amanhecer

quando não tem preocupação
com o número do tempo
se esquece do que aperta o nó

os grãos de areia que ficam
em nós marcam a lembrança
escondidos entre os dedos
e dentro da orelha

eles se apropriam de nós
pra gente poder lembrar

não

não me atrevo
não me atrevo
a dizer só

pra gente poder lembrar
da leveza de sair de dentro de si

quinta-feira, 4 de maio de 2017

todo poema que
agora
começa reclamando
no final
sem
perceber
se transforma
em um poema
de amor
um poema de amor


respirar

antes de tudo um pé depois do outro
a difícil tarefa de se concentrar na respiração
pra não ter que descompassar os pés
e a vida

respirar



quinta-feira, 16 de março de 2017

eu não sei dançar
mas meus olhos
meus olhos dançam
eu não sei dançar
mas quando
tua retina alcança a minha
meus olhos dançam
eu não sei dançar
mas meus olhos dançam
quando tua retina
alcança a minha
meus olhos dançam
mas eu não sei dançar